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Dólar cai 0,97% com menor temor fiscal e expectativa de Selic mais elevada

Em terreno negativo já pela manhã, a moeda norte-americana acentuou as perdas e tocou no patamar de R$ 5,20 ao longo da tarde, em sintonia com a melhora da performance de outros ativos domésticos, com o Ibovespa virando para o lado positivo e as taxas de juros longas registrando mínimas – movimento atribuído, em parte, aos números positivos da arrecadação federal.

Também contribuíram para a arrancada do real no fim do dia a leve queda do índice DXY, que chegou a operar em alta pela manhã, e o avanço dos preços do petróleo, em dia marcado por apetite ao risco, com alta das taxas dos Treasuries e das Bolsas americanas. Apesar do clima positivo no exterior, as dividas emergentes tiveram desempenho misto, com queda do rand sul-africano e leve alta do peso mexicano, ambos tidos como pares do real.

Por aqui, após correr entre a máxima a R$ 5,2708 e a mínima a R$ 5,2068, o dólar à vista encerrou o pregão em queda de 0,97%, a R$ 5,2113 – o menor valor desde 4 de agosto (R$ 5,1858). Foi o segundo dia consecutivo de recuo firme do dólar, o que praticamente apagou a valorização acumulada da moeda americana no mês (+0,03%).

A avaliação é que a diminuição das tensões fiscais – desencadeada após a fala firme da terça-feira do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), a favor da manutenção do teto dos gastos – reduz o prêmio de risco dos ativos locais. A diminuição da temperatura da crise político-institucional, na ausência de novo tiroteio entre o presidente Jair Bolsonaro e ministros do Supremo Tribunal Federal, também é vista como alavanca para melhora da percepção de risco.

Em tal contexto, o real poderia passar a espelhar com um pouco mais de fidelidade os fundamentos das contas externas e se beneficiar do aperto monetário, que aumenta o diferencial de juros e estimula as operações de arbitragem.

“A taxa de câmbio vinha refletindo muito a delicada combinação de crise política e fiscal. E houve um certo alívio com a fala do Lira ontem, de respeito ao teto de gastos, apaziguando um pouco os ânimos. Além disso, o IPCA-15 de hoje, mais alto do que se esperava, chama mais juros, o que, na teoria, ajuda o real a performar bem”, afirma o gerente da mesa de derivativos financeiros da H.Commcor, Cleber Alessie, que ainda vê “muito prêmio de risco” embutido na taxa de câmbio. “Ainda teria espaço para o real se apreciar. Mas a crise política ainda está viva e o mercado não está com muita boa vontade com o Brasil. Qualquer estresse lá fora, pode disparar venda do real”.

Pela manhã, o IBGE divulgou que o IPCA-15 acelerou de 0,72% em julho para 0,89% em agosto, acima da mediana do Projeções Broadcast (0,84%). O resultado alimenta as expectativas de que o Banco Central possa acelerar o passo e elevar a taxa Selic em 1,25 ponto porcentual em setembro. Ganham também mais forças as apostas de que a Selic possa atingir 8% no atual ciclo de aperto monetário. Investidores monitoram também o impacto da crise hídrica sobre a dinâmica inflacionária e a possível reação do BC

A arrecadação em julho somou R$ 171,270 bilhões, melhor resultado da série histórica e acima da mediana de Projeções Broadcast (R$ 157,85 bilhões). No ano, até julho, a arrecadação tem aumento real de 26,11% em relação a igual período do ano passado.

O ministro da economia, Paulo Guedes, aproveitou os números positivos para “bater o bumbo” em torno da recuperação da atividade econômica. “Os nossos fundamentos fiscais estão mais fortes ainda”, disse Guedes, afirmando que possivelmente haveria superávit primário no ano que vem, não fosse a reforma tributária.

Além das declarações de Lira a favor do teto de gastos, o economista-chefe da Integral Group, Daniel Miraglia, chama a atenção para o fato do presidente da Câmara ter adiado a votação da reforma do Imposto de Renda e ter dito que vai pautar a reforma administrativa. “O Brasil estava descolado do exterior desde que foi enviada a proposta de reforma fiscal para o Congresso, que o mercado entende como populista. O adiamento foi positivo”, afirma Miraglia, acrescentando que a alta das commodities, após a informação de que a China conseguiu controlar a variante dela do coronavírus, também ajudou a dar fôlego ao real. “O cenário de médio prazo continua desafiador. Vai entrar na pauta até o fim do ano com mais força a discussão do orçamento de 2022. E a gente tem o 7 de setembro. Precisamos ver como vai ser o movimento de rua a implicação disso na relação entre os Poderes”.

Do lado das contas externas, o BC divulgou, pela manhã, que a conta corrente foi deficitária em US$ 1,584 bilhão em julho, bem acima da mediana das projeções (déficit de US$ 300 milhões), resultado atribuído, sobretudo, à despesa líquida de lucros. Do lado positivo, destaque para a entrada de US$ 6,103 bilhões em julho, acima da mediana de Projeções Broadcast (US$ 4,550 bilhões). Foi também o melhor resultado para o mês desde 2014.

O BC também informou que o fluxo cambial em agosto (até o dia 20) foi positivo em US$ 4,607 bilhões, com entrada de US$ 2,171 bilhões pelo lado comercial e US$ 2,436 bilhões no canal financeiro.

Em relatório, a Genial Investimentos afirma que os “fundamentos da economia brasileira” indicariam uma taxa de câmbio de R$ 4,30 no fim deste ano e que o atual patamar da moeda americana é, em grande parte, determinado pela questão fiscal. “Sinalizar de forma crível que o teto será respeitado, é o instrumento para que o valor de mercado da taxa de câmbio se aproxime do valor determinado pelos fundamentos, contribuindo para o controle da taxa de inflação”, afirma.

Juros

A agenda de indicadores movimentou a curva de juros nesta quarta-feira, inicialmente com o IPCA-15 de agosto, pela manhã, e com dados fiscais e sinalização do Tesouro de conforto no gerenciamento da dívida, à tarde.

O dia começou pesado com o IPCA-15 de agosto a 0,84%, acima do consenso de 0,72%, e com leitura negativa dos preços de abertura, somado à informação apurada pelo Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) de que medidas de racionamento estudadas pelo governo podem elevar a bandeira vermelha para até R$ 20 a cada 100 kWh.

A combinação explosiva para a inflação puxou de imediato principalmente as taxas curtas, fortalecendo a ideia de que o Copom pode ser mais agressivo no ciclo de aumento da Selic. Ao longo do dia, porém, a pressão perdeu bastante força, sob a percepção de que a inflação a ser afetada é a de 2021, dada como batalha perdida.

No fim do dia, as taxas curtas estavam em leve alta e as de prazo médio e intermediário em queda firme, refletindo a perspectiva de aperto na Selic nos próximos meses conjugada à melhora na percepção para as contas públicas trazida pelos números fortes da arrecadação de julho, mesmo diante do risco de racionamento de energia que ronda o País.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2023 passou de 8,43% para 8,45% e a do DI para janeiro de 2025, de 9,595% para 9,41%.

A indicação do Tesouro de que seu colchão de liquidez seguiu robusto mesmo com a piora das condições de mercado desde o mês passado também trouxe alívio. Com a ajuda ainda da manutenção do apetite pelo risco no exterior, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027, enfim, voltou a fechar em um dígito, o que não acontecia desde 13 de agosto (9,82%).

O DI para janeiro de 2027 terminou com taxa de 9,79%, de 10,004% no ajuste anterior. A curva teve expressiva redução de inclinação, de 24 pontos-base, da terça para a quarta, considerando o diferencial entre os vértices de janeiro de 2023 e janeiro de 2027.

Bolsa

O Ibovespa mudou de sinal no meio da tarde desta quarta-feira, 25, e conseguiu conservar a linha de 120 mil pontos pelo segundo dia, após tê-la cedido em 16 de agosto, quando iniciou correção que consumiria 4,5 mil pontos até o pior fechamento da semana passada, na quarta, 18, em relação aos 121,1 mil pontos do encerramento da sexta-feira anterior, 13. Na semana, o índice da B3 acumula agora recuperação de 2,34%, com o fechamento desta quarta-feira, na máxima da sessão, em alta de 0,50%, aos 120 817,71 pontos, e mínima a 119.225,93, saindo de abertura aos 120 210,21 pontos.

No mês, limita agora a perda a 0,81% em agosto, avançando 1,51% no ano. O giro financeiro desta quarta-feira ficou em R$ 28,8 bilhões no fechamento.

Nesta quarta, a percepção positiva sobre a arrecadação federal acabou por se impor ao IPCA-15 de agosto, acima do esperado, e também à crise hídrica, a pior em 91 anos, que leva o governo a desenhar iniciativas que evitem racionamento, a começar pela administração pública.

Assim como na quarta, apesar da hesitação vista pela manhã, o Ibovespa conseguiu se conectar ao humor de Nova York, positivo, com o petróleo também estendendo recuperação, que recoloca o barril do Brent a US$ 72. Petrobras PN fechou em alta de 0,54% e a ON, de 0,25%.

“O mercado está dando atenção à arrecadação federal, que melhora a percepção sobre o fiscal. É preciso observar também que, perto das 16h (antes da entrevista coletiva do Ministério de Minas e Energia), o giro estava muito fraco em relação à média de 21 dias, com cautela também para o encontro do Federal Reserve em Jackson Hole”, diz Victor Licariao, líder de alocação de renda variável da Blue3.

À tarde, com o dólar acomodando-se entre R$ 5,20 e R$ 5,21, perto da mínima do pregão, e a curva de juros devolvendo o ajuste da manhã, quando prevalecia a volatilidade inspirada pelo IPCA-15 de agosto, o Ibovespa encontrou algum fôlego para retornar aos 120 mil pontos, estendido à máxima do dia no fechamento.

A aceleração dos índices de preços “vem sendo precificada pela curva (de juros) há algum tempo, o que explica a menor relação de risco-retorno no mercado, e a queda dos juros hoje, mesmo com esse dado (IPCA-15)”, diz Rafael Ribeiro, analista da Clear Corretora, acrescentando que a situação política e fiscal tem cobrado mais alto do que a própria inflação.

Outro destaque do dia foi a crise hídrica: no fim da tarde, o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, anunciou que, a partir de 1º de setembro, começará programa de redução voluntária de demanda para consumidores, ao explicar que decreto apresentado nesta quarta, mais cedo, é para redução de consumo da administração pública federal. O ministro disse também que o nível de precipitação se manterá baixo até o fim de setembro ou começo de outubro, destacando piora especialmente nos reservatórios do Sul.

“O monitoramento do setor elétrico brasileiro é feito 24h por dia”, disse o ministro, tendo observado que os meses de julho e agosto registraram o pior volume, da série histórica, em águas que chegaram aos reservatórios. O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) informou estar trabalhando para aprovar entrada de quatro termelétricas.

Na falta de medidas restritivas mais imediatas, o setor teve desempenho majoritariamente positivo no fechamento da sessão, não muito distante da estabilidade. No fechamento, Cemig PN mostrava ganho de 0,77%% na sessão, com Eletrobras PNB em leve alta de 0,36%, em variação semelhante à de Copel PNB (+0,30%), enquanto Cesp PNB avançou 0,08% e Eletrobras ON, cedeu apenas 0,03%.

O desempenho foi misto para o setor de mineração (Vale ON -0,21%) e siderurgia (Gerdau PN +0,55%, CSN ON -2,31%). Na ponta do Ibovespa, destaque para Suzano (+5,44%), Totvs (+4,16%) e CVC (+4,00%). No lado oposto, Banco Inter (-4,42%), CSN (-2,31%) e Americanas ON (-1,35%).

*Estadão Conteúdo

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