O presente texto é uma continuação da lista iniciada aqui. O ideal é começar por aquela, mas veja, você é quem manda. Caso queira começar por esse, pode, assim como pode ler os dois ao mesmo tempo e maximizar sua leitura. Pode ficar à vontade.

OCTOPATH TRAVELER
A maior e mais pessoal das jornadas não é, necessariamente, solitária. Além disso, o que cada um vivencia pode ser diferente, seja trágico ou engraçado, seja agitado ou calmo, mas, para quem vive, é de importância absoluta.
É exatamente esse processo – da jornada pessoal e de vivências diferentes – que octopath procura retratar. Não há um personagem principal, mas sim oito. Cada um deles é o protagonista de sua própria história, com próprio início, meio e fim.
Todas as histórias presentes são distintas: há o conto sombrio e trágico da moça que perdeu tudo e agora busca vingança, há uma caçadora que está perseguindo uma criatura sombria na tentativa de salvar as vítimas de sua maldição, assim como também temos o apotecário, que recebeu, em sua infância, um gesto de bondade e agora viaja pelo mundo, curando doenças.
O jogo usa tecnologias modernas para recriar gráficos do passado, com efeitos visuais impossíveis de serem feitos com o que estava disponível na época. Junto com a apresentação, a jogabilidade também mescla o clássico e o vanguardista para confeccionar um combate em turnos que é, ao mesmo tempo, tático e rápido. Ainda que não seja perfeito, visto que as histórias são distintas até demais e os personagens não têm interações nas aventuras que não são suas, o jogo traz uma experiência maravilhosa, bela e com uma trilha sonora que não é nada além de divina.

DANTE’S INFERNO
Demorou 700 anos, mas, finalmente, “Inferno”, a primeira parte do poema épico do Dante Alighieri, recebeu uma adaptação para os videogames. E a espera valeu a pena. O jogo da finada desenvolvedora Visceral Games é uma releitura do clássico literário, usando como molde jogos de ação estilosa, no estilo de Devil May Cry, Bayonetta e, principalmente, God Of War.
Na verdade, o jogo bebe da fonte do violento Deus grego da guerra mais do que meramente pelo combate. O conto clássico retrata, por meio de palavras, paisagens e estruturas que são, além de impossíveis, literalmente bíblicas, com difícil representação visual. Porém, o jogo consegue, com maestria, retratar exatamente aquilo que, durante séculos, leitores conseguiam apenas vagamente imaginar.
O jogo não é – nem há como ser – uma adaptação perfeita do início do conto. O jogo toma liberdades em como retrata personagens e motivações, o que serviu como base para críticas sobre como “desrespeita” a obra original.
Honestamente, tendo lido a divina comédia e percebendo que ela é, em sua essência, uma “fanfic católica”, é perfeitamente possível imaginar que, onde quer que esteja, Dante está feliz por sua representação digital ser um guerreiro com uma foice maneira.

NARITA BOY
Uma odisseia virtual, não há como definir de outra forma. No melhor estilo Tron, um jovem é digitalizado para dentro de um videogame e deve ajudar seus habitantes a enfrentarem a ameaça dos Stallions, uma facção maligna cuja ambição vai muito além de dominar o mundo virtual.
Por ser o primeiro jogo da empresa, ele tem limitações. Por mais que o combate seja extremamente agradável, o ato de explorar, que envolve correr e saltar, não é tão preciso, o que resulta em derrotas injustas, as quais, ainda que não te façam perder muito progresso, são frustrantes
Mas apesar de pequenas problemáticas, o que prende quem joga é a apresentação. Tudo possui uma beleza tão tecnológica quanto mística. Quando digo tudo, é tudo mesmo. Os visuais, diálogos e músicas são um espetáculo para os sentidos, criando um universo que é fascinante de ser explorado.
A primeira tentativa de sua desenvolvedora no mundo dos games foi uma maravilha. A jornada do titular Narita Boy pelo mundo virtual, enquanto descobre segredos bem pessoais, acompanhará você por muito tempos após o fim do jogo.

PSYCHONAUTS 2
Psychonauts 2 é um tipo de jogo impossível. Ele é a sequência de uma obra que, na data do presente texto, foi lançada há 16 anos e não vendeu muito bem. A franquia Psychonauts foi, durante muito tempo, considerada, bem, não uma franquia, mas apenas um jogo que foi muito bom, mas não deu muito certo.
Porém, Psychonauts 2 é uma obra surrealmente incrível. Esses 16 anos de espera são sentidos, mas não de maneira negativa. Você percebe que a desenvolvedora teve uma década e meia para lapidar sua forma de contar histórias e de criar mecânicas.
Nós acompanhamos Razputin “Raz” Aquato, um garoto de 10 anos acrobata e com poderes psíquicos que, nos eventos do jogo anterior, fugiu do circo itinerante de sua família para ir ao acampamento de verão Whispering Rock, o qual existe para treinar jovens como ele para se tornarem Psychonauts, agentes secretos que lutam para defender o “pensamento livre”.
Nos eventos atuais, após conseguir uma grande honra por seus feitos heroicos – se tornar estagiário – ele deve impedir que uma conspiração traga de volta uma grande vilã. Essa aventura levará nosso herói para a última fronteira desconhecida na terra: a mente humana. Isso permite a confecção de fases profundamente criativas que retratam sensações e ideias intimas de maneira genial.
O vício em bebidas de um personagem a solidão que carregou ao longo de sua vida se traduz em um nível composto por diversas ilhas distantes, separadas por um oceano de álcool. Em outro momento, após interferir na forma de pensar de uma superiora, Raz tem de entrar na mente artificialmente modificada dela: um hospital que retrata o início de sua carreira sendo corrompido por um vício em apostas.
Essas são apenas algumas das fases mais simples que o jogo retrata. Junto com isso, uma deliciosa locomoção e um acervo criativo de habilidades psíquicas permitem interações incríveis com o mundo e com as pessoas que nele habitam.
Psychonauts 2 é o tipo de obra que eleva o ramo da arte do qual pertence. Sem contar que é um jogo bem engraçado, o que é muito bom.

LAST STOP
Esse jogo é bem legal. É uma antologia de histórias de ficção científica que se passa no mesmo bairro em Londres. Nós acompanhamos 3 contos de pessoas que lidam com acontecimentos que não entendem.
Um grupo de amigos descobre que um misterioso vizinho está, possivelmente, raptando pessoas; duas pessoas vivenciam um clássico conto de troca de corpos e, por último, uma moça está envolvida com algo misterioso que, aparentemente, ela entende bem, mas deixa a jogadora sem saber por um bom tempo.
É uma excelente história, com ótimo roteiro, personagens interessantes e escolhas que, de fato, carregam consequências. Porém, o motivo de estar aqui nessa lista não é nenhum desses. A verdadeira razão dele merecer destaque é porque ele representa o melhor na nova geração de consoles.
Mais do que gráficos ultrarrealistas, os consoles da atualidade finalmente permitem não só que jogos menores funcionem tão bem quanto querem funcionar, mas também que tenham destaque.
O serviço de assinatura da Xbox, o Gamepass, colocou esse jogo em seu acervo no meio desse ano. Um jogo de aventura, com foco na história. Exatamente o jogo que não sobrevive em um cenário no qual o mercado anseia apenas por jogos de tiro e que fazem você jogar para sempre.
Um jogo finito, curto, que preza apenas por contar um conto, ter destaque e desempenho impressionantes, deixa-me bastante animado para o futuro dos videogames.




