(UFMG) e membro do conselho consultivo da Sociedade Internacional para o Avanço da Pesquisa e Tratamento da Doença de Alzheimer.
Ele coordena um dos braços de um estudo multicêntrico que pretende mostrar como intervenções sem medicamentos são capazes de causar melhora cognitiva em idosos. Uma pesquisa do tipo na Finlândia, com pessoas de 60 a 77 anos, mostrou, em apenas dois anos, que o grupo de idosos que participou de atividades físicas, “treinos” para o cérebro e monitoramento cardiovascular teve melhora cognitiva.
Do humor ao hormônio: como a atividade física age no cérebro
Atividades físicas aeróbicas, como correr, nadar, pedalar e dançar, ajudam a controlar a diabete e a hipertensão – dois fatores de risco para o Alzheimer. Além disso, melhoram o humor e, consequentemente, a depressão. Hoje, já se sabe que a depressão também está ligada ao Alzheimer (pode ser um fator de risco ou uma manifestação que antecede o aparecimento dos primeiros sinais claros da demência).
Pesquisas de longa duração que acompanharam voluntários por anos sugerem que atividades físicas moderadas a vigorosas (não vale só caminhar no shopping; tem de suar) estão associadas à redução do risco de demência.
E não é só: também parece haver um efeito da atividade física diretamente no cérebro. Uma das pesquisas mais importantes sobre isso foi feita em 2019 por cientistas ligados à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Eles descobriram que o exercício físico promove a liberação de um hormônio protetor para o cérebro: a irisina.
A pesquisa mostrou que a irisina está reduzida no cérebro de pacientes com Alzheimer e que, ao dar irisina a modelos de camundongos com o problema, é possível recuperar a memória dos animais. “Nossa aposta é que a irisina fortalece as sinapses”, explica Ferreira.
Manter a pressão controlada: menos acidentes cerebrais e mais oxigenação
O relatório publicado na revista The Lancet recomendou que pessoas de meia-idade, na faixa dos 40 anos, mantenham a pressão arterial sistólica abaixo de 130 mm Hg para reduzir o risco de demências, incluindo o Alzheimer. Para ter uma referência, a pressão sistólica considerada ideal é de 120 mm Hg e a diastólica, de 80 mm Hg (traduzida, popularmente, como 12 por 8)
Os estudos publicados até agora são claros ao associar a hipertensão ao aumento de problemas no cérebro. Um deles, com 8,6 mil participantes no Reino Unido, mostrou que a pressão sistólica de 130 mm Hg ou acima desse valor em pessoas com 50 anos foi associada a um crescimento do risco de demência.
“Quem tem condição cardiovascular pior, por exemplo os hipertensos, tem maior risco de lesões vasculares cerebrais, acidentes vasculares cerebrais ou lesões isquêmicas pequenas ou hemorrágicas”, explica Caramelli. Danos do tipo afetam diretamente as células do cérebro.
Além disso, explica o professor, pessoas hipertensas têm uma modificação no sistema de passagem de substâncias dos vasos sanguíneos para as células cerebrais. “Se corrige a hipertensão, diminui essa disfunção da barreira hematoencefálica e melhora o funcionamento cerebral.”
Por fim, quem não trata a hipertensão corre risco de ter insuficiência cardíaca – problemas na função do músculo cardíaco reduzem, por exemplo, a quantidade de sangue que chega ao cérebro. O órgão passa a ficar privado de irrigação e oxigenação adequadas.
Hora do sono é associada à ‘faxina’ do cérebro
Já a forma como o sono se relaciona com demências e, especificamente, com o Alzheimer ainda está sendo estudada. Está claro, porém, que a saúde cardiovascular se beneficia, de um modo geral, de um sono de qualidade. Para a maior parte das pessoas, 7 a 8 horas por noite são suficientes.
Estudos também mostraram que os distúrbios do sono têm sido associados à deposição da proteína beta-amiloide no cérebro e ao aumento da proteína tau (duas substâncias consideradas marcadores da doença de Alzheimer). Além disso, enquanto dormimos, ocorrem atividades cerebrais responsáveis pela fixação de memórias.
Outro aspecto que vem sendo investigado é o papel das células da glia, um sistema de células menos conhecido e que serve de apoio aos neurônios. Elas funcionam como “lixeiras” do cérebro, varrendo substâncias tóxicas – e funcionam melhor no período da noite, o que é mais um bom motivo para cuidar do sono.
*ESTADÃO CONTEÚDOS



