Arquivo de Notícias2021 | 2022

BATMAN: HERÓI OU PSICOPATA?

Durante as últimas semanas um rumor vem levantando uma discussão no mundo nerd acerca dos novos rumos que o Batman tomará nos cinemas.

Grace Randolph, famosa Youtuber dos Estados Unidos, que sempre está por dentro de tudo o que acontece nos bastidores da indústria do entretenimento, recentemente disse em seu twitter que os executivos da Warner Bros. estariam “preocupados” com a abordagem do novo filme ‘The Batman’ do diretor Matt Reeves e protagonizado por Robert Pattinson, pois o mesmo exploraria a faceta de um Bruce Wayne com sérios problemas psicológicos.

Imagem digital fictícia de personagem de filme

Descrição gerada automaticamente com confiança baixa
The Batman de Matt Reeves. Imagem: DC Fandome

Tanto nos quadrinhos quantos nos filmes e séries, volta e meia este tema vem à tona. Todo mundo sabe que o Batman foi o primeiro herói que teve uma motivação, afinal ele é um ser humano comum que resolveu combater o crime após ver seus pais serem assassinados na sua frente durante um assalto. Antes dele só havia o Superman, que é um alienígena com super poderes e que luta para defender a terra, sua criação pelos seus pais adotivos terráqueos Jonathan e Martha, bem como a sabedoria kryptoniana passada através de seu pai Jor-el e seu amor pela jornalista Lois Lane, reforçam sua fibra moral e não o deixam se voltar contra a humanidade.

Uma imagem contendo pessoa, jovem, beisebol, vestindo

Descrição gerada automaticamente
Batman da série de 1966, interpretado por Adam West. Imagem: Sbs.au

Ao longo das oito décadas de existência do Homem-Morcego existiram várias interpretações do Batman, desde as mais galhofas como na série de tv de 1966, ou no filme Batman e Robin de 1997, dirigido por Joel Schumacher onde havia até um bat-cartão de crédito e os polêmicos “bat-mamilos” no traje do personagem, até as mais sombrias e sérias, como nos filmes Batman e Batman: O Retorno de Tim Burton (1989 e 1992, respectivamente), a famosa e consagrada “trilogia Nolan” onde mostrava um Batman mais pautado na realidade, culminando em Batman V. Superman e Liga da Justiça do diretor Zack Snyder que se baseiam na HQ Batman: O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller, mostrando um Batman mais velho, violento e cansado de combater o crime.

Desenho de um homem

Descrição gerada automaticamente com confiança média
Batman de Ben Affleck em Batman V. Superman. Imagem: Warner 

O CAVALEIRO DAS TREVAS

Padrão do plano de fundo

Descrição gerada automaticamente
Batman: O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller. Imagem: DC Comics 

1986 foi um ano divisor de águas para os quadrinhos. Alan Moore lançou o seu consagrado Watchmen e Frank Miller lançou Batman: O Cavaleiro das Trevas, inaugurando aí os quadrinhos voltados para um público mais adulto. Cavaleiro das Trevas é considerada a melhor história do Batman já feita e quiçá, a melhor história em quadrinhos de todos os tempos. Nela vemos um Batman aposentado já com 55 anos, vivendo sua vida de “playboy” como Bruce Wayne, mas ainda assombrado pela morte de seus pais e revoltado com a crescente onda de violência que assola Gotham City, até que ele resolve voltar de sua aposentadoria. Um Batman mais violento, que precisa toda hora se provar ainda capaz de fazer a diferença em um mundo dominado por jovens e velhos criminosos, repleto de corrupção e politicagem. Tudo o que foi feito após Cavaleiro das Trevas, tanto nos quadrinhos quanto nos filmes têm influência da obra de Frank Miller. 

BATMAN FASCISTA?

Hoje é cada vez mais comum, ainda mais com a polarização política que ocorre no nosso país e no mundo de uma forma geral, as pessoas dizerem que o Batman é fascista, uma figura opressora, um bilionário que se veste de morcego para bater em pobre, um psicopata, afinal uma pessoa que se veste de morcego para bater em bandido não pode ser “normal”, não é?

BATMAN HERÓI

Desenho de personagem

Descrição gerada automaticamente com confiança baixa
 Batman de Neal Adams: Imagem: Neal Adams     

Em 2019, na CCXP – Comic Con Experience que se realizava em São Paulo (bons tempos antes da pandemia), pude ver uma lenda viva em se tratando de quadrinhos do Batman: Neal Adams. Neal revolucionou o Batman na década de 70, seu traço é facilmente reconhecido, pois ele ajudou a consolidar a figura do Homem-Morcego como a conhecemos até hoje.

Na ocasião tive a oportunidade de presenciar um painel que reunia vários artistas que já haviam trabalhado com o Batman, desde os mais novos como Rafael Grampá (que na época ia lançar a HQ Batman DKIII: The Golden Child) até os da velha guarda, como Frank Quitely e é claro, Neal Adams. Durante o painel foi levantada a questão do Batman ser um psicopata, um cara com sérios distúrbios que se veste de morcego para espancar bandidos, um louco que nunca superou a morte dos pais. Muitos artistas concordaram, Neal ficou quieto ouvindo o que todos tinham a dizer e ao final pegou o microfone e disse:

“Batman é um herói. Uma pessoa que abriu mão da sua vida e das suas benesses como um bilionário, para se preparar, direcionar seus recursos para combater o mal. Ele faz isso por que sabe o quão traumatizante e dolorido foi para ele ver seus pais caídos sem vida naquele beco. Por isso ele se veste toda as noites de morcego para combater o crime e evitar que mais pessoas passem por aquilo que ele passou”

Todos aplaudiram ao final de sua fala e nada mais foi dito.

Desenho de um homem

Descrição gerada automaticamente
Neal Adams. Imagem: Geek News

OPINIÃO PROFISSIONAL

Mulher com cabelo escuro sorrindo

Descrição gerada automaticamente
Dra. Raquel Assayag. Imagem: Arquivo pessoal

Para jogar uma luz sobre esta questão que envolve o personagem mais sombrio de todos, procurei a ajuda de uma profissional. Dra. Raquel Assayag, Psicóloga, formada pela Universidade federal do Amazonas, em 2016, Especialista em saúde, pela fundação de Medicina Tropical, Especialista em terapia cognitivo comportamental, atuante na área de psicologia clínica, fez a seguinte explanação:

“Batman é um personagem repleto de humanidade em sua história: medos, traumas, luto, vulnerabilidade, coragem e valores. Fez da luta contra o crime um valor a ser seguido com todo seu vigor, o que, certamente, não é desvinculado de sua história. Batman enfrentou um luto complicado, e encontrou no combate ao crime um mecanismo compensatório do trauma sofrido diante da violenta morte dos pais. O menino vulnerável hipercompensa a própria vulnerabilidade tornando-se uma figura forte, combativa e vestindo o traje de morcego, animal que o amedrontava. Sublima sua dor, utilizando-a como combustível para o bem social. Isso é bom ou ruim? Para além de rótulos positivos ou negativos, cabe a reflexão sobre o quanto daquele menino ainda vive sob a fantasia compensatória, ainda necessitando de cuidado, elaboração de seu luto, afeto e pertencimento, para então fazer as pazes com o passado. Afinal, a melhor vingança é uma boa vida! Parando para refletir… o que pode ser mais humano que isso? Quantos de nós mantemos, no presente, estratégias para lidar com traumas passados? É… se enfrentar os dilemas inerente a sermos humanos é desafiador e heróico, Batman é sim, um herói, e nós também!”

Ok. Drop the mike.

MEU HERÓI DE INFÂNCIA

Desenho de pessoa com a mão no rosto

Descrição gerada automaticamente com confiança média
Batman. Imagem: DC Comics

Batman sempre foi meu herói favorito desde a infância. Cresci lendo as histórias de Neal Adams e com apenas 10 anos de idade li Cavaleiro das Trevas, uma obra que me marcou e me marca até os dias de hoje. Para mim Batman sempre foi um herói, sua motivação sempre me pareceu justa e sobretudo, sempre admirei sua força de vontade, sua luta para superar seus traumas e seus medos para combater a criminalidade. Em Batman Begins, primeiro filme da trilogia Nolan, ele fala: “Não é quem eu sou por dentro (deste traje) e sim, o que eu faço que me define”. Ou seja, um homem comum, com muitos recursos, que poderia simplesmente deixar tudo pra trás e viver sua vida, mas escolheu se dedicar à uma causa, fazer justiça.

Batman é um símbolo como todo herói deve ser. Por mais que o novo filme de Matt Reeves explore o trauma e a dor de Bruce Wayne, que ele não esqueça que no fim da noite ele sempre será o herói que fascina e inspira gerações de crianças e adultos há mais de oitenta anos. Deixe seu comentário e até semana que vem nesta mesma bat-coluna, neste mesmo bat-portal!

3 COMMENTS

Deixe um comentário para João Paulo Lapa Cancel reply

Please enter your comment!
Please enter your name here