O alagamento de parte do Centro Histórico de Manaus, em decorrência da subida histórica do rio Negro, rendeu cenário inusitado para a população. Nesta terça-feira (01/06), foi registrada a maior cheia da história, com uma subida de 29,98 metros, máxima desde o início do monitoramento, feito desde 1902. Entre comparações com Veneza e uma série de memes, o fato esconde problemas mais complexos como infraestrutura da cidade, mudanças climáticas e a relação cultural do povo com o rio.
No Centro de Manaus, a subida das águas preocupa não apenas pelos impactos na vida urbana, como o alagamento de comércios e fechamento de ruas, mas também pelo grande número de pessoas que passou a circular na região, a fim de registrar o fato histórico.
“O povo está tentando passar uma mensagem, expondo o problema de maneira cômica”, afirma Israel Pinheiro, professor da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), sociólogo e doutor em Sociedade e Cultura na Amazônia.
O sociólogo alerta para a questão sanitária. “É importante ressaltar que gestores públicos precisam tomar consciência sobre a problemática que é circular por essas áreas. A água quando ela invade, ela invade pelo esgoto, ela consequentemente traz muitos problemas de saúde, principalmente para as pessoas que trabalham e atuam naquele local”.

Contradição
Situada à margem esquerda do rio Negro, Manaus tem uma hidrografia formada por quatro bacias: Educandos, São Raimundo, Tarumã e Puraquequara. As palafitas e marombas – elevação do piso da casa durante as cheias – são alguns dos elementos culturais que retratam bem a vida de quem vive próximo às águas.

O antropólogo, Clayton Rodrigues explica que a cidade tem uma relação contraditória com o rio. “Nosso processo de urbanização nega essas questões mais locais. Não é um processo de integração natural, fomos ensinados que igarapés e rios não eram para cidade. Tanto que nós não temos uma cidade de frente para o rio”, elucida.
Conforme explica o especialista, as construções mais antigas da cidade estão de costas para os rios. “A gente não tem, por exemplo, uma grande orla na zona oeste ou na zona leste, que são banhadas pelo rio Negro. Não temos mirantes, são pouquíssimos os lugares em que a gente tem uma visão privilegiada do rio”, exemplifica.
Uma cidade com tanta água, não deveria se surpreender com as cheias. O fato é que o nível das águas atingido este ano excedeu à expectativa. A Prefeitura de Manaus trabalha com a previsão de que a cheia supere os 30 metros, de acordo com estimativas do Serviço Geológico do Brasil (CPRM).
“A frequência desses eventos extremos têm aumentado. Isso está associado a variabilidade do clima, que impulsiona eventos de cheias e secas severas associados aos fenômenos de El Niño (déficit de chuvas, estiagem) e La Niña (excesso de chuva, enchente), que por sua vez modelam o excesso ou supressão de chuvas na região”, explica Patrícia Guimarães, meteorologista e doutora em Clima e Ambiente.
Futuro
A meteorologista afirma que ainda é cedo para dizer que as cheias irão atingir níveis ainda maiores nos próximos anos, porque estes fenômenos não são bem compreendidos. É fundamental ter uma série histórica de coleta de dados climáticos para correlacionar com esses eventos.
Patrícia considera a política de prevenção fundamental para que a cidade possa se preparar para os próximos anos. “Não temos recursos sendo aplicados para monitoramento do clima na Amazônia, e portanto não há compreensão real de como será nosso futuro”, afirma. “Um exemplo prático são os furacões e tornados que ocorrem nos EUA, lá eles entenderam a necessidade de coletar dados desses eventos, e investem muito dinheiro para melhorar a resolução dos modelos de previsão e salvar vidas”, exemplifica.
Os dados sobre o clima na Amazônia são escassos. “É um cenário preocupante que cobra seu preço, a exemplo da enchente que estamos vivendo agora. É tudo uma questão de prioridade”, diz a meteorologista.

Mudanças climáticas
O biólogo Camilo Torres Sanchez, especialista em desenvolvimento sustentável e ecologia da Amazônia, afirma que ainda não estamos em uma situação irreversível. Do ponto de vista científico e tecnológico, temos condições de diminuir a quantidade de dióxido de carbono emitida no ar, que leva à poluição, à formação de chuva ácida e ao desequilíbrio do efeito estufa – consequentemente, elevação da temperatura da Terra.
A alternativa apontada pelo especialista são as modificações das matrizes de produção energética, em especial o petróleo e a mineração. “Essa mudança na matriz energética do planeta e nos hábitos de consumo das pessoas é possível, o que é difícil é um acordo político para isso acontecer”, afirma. “Essa mudança de comportamento depende das pessoas, mas, principalmente, dos governos e das elites empresariais, das grandes multinacionais e petroleiras que precisam mudar seu posicionamento político”, acrescenta.
Se políticas públicas não forem adotadas, a Amazônia poderá viver enchentes muito grandes, que geram desastres para a população, ou uma perda de água total em bacias hidrográficas que destruam peixes e diminuam a navegabilidade das águas. “Tudo isso pode ser controlado em uma ação global, que depende dos poderes mundiais, mas também numa ação local, que depende da gente, como práticas de reflorestamento”, finaliza o biólogo.



