As incertezas domésticas no campo fiscal e político impediram que o real se beneficiasse do dia positivo para as divisas emergentes, em meio a uma onda de enfraquecimento global da moeda norte-americana, após o índice inflação ao consumidor nos EUA (CPI) em julho vir dentro das expectativas. Nem mesmo a ampliação do diferencial entre juros internos e externos, por conta do ciclo atual de alta da taxa Selic, parece animar os investidores a se desfazer de posições defensivas – um reflexo claro da exigência de prêmio de risco mais elevado por conta das incertezas fiscais.
Afora uma leve queda pela manhã, logo após a divulgação do indicador de inflação CPI nos EUA, o dólar trabalhou em alta firme por aqui ao longo do dia, enquanto lá fora aprofundava as perdas frente a moedas emergentes pares do real, como o peso mexicano e o rand sul-africano. Além da moeda brasileira, apenas a lira turca sofreu nesta quarta-feira.
Com mínima de R$ 5,1642 e máxima de R$ 5,2346, registrada no início da tarde, o dólar à vista encerrou o pregão em alta de 0,47%, a R$ 5,2212.
Ao desconforto com o desfecho da reforma do Imposto de Renda, que pode ser votada nesta quarta na Câmara dos Deputados, somou-se a informação, do Tesouro Nacional, de que a PEC dos Precatórios embute a flexibilização da chamada “regra de ouro”, que impede o governo de se endividar para pagar despesas correntes sem autorização do Congresso.
Também causaram desconforto declarações do presidente da República, Jair Bolsonaro, sobre preços de combustíveis e energia elétrica, consideradas populistas. Derrotado na PEC do voto impresso na terça, o presidente disse nesta quarta que o resultado da eleição não será confiável e acusou de governadores de terem interesse na manutenção dos preços altos dos combustíveis para aumentar a arrecadação com ICMS.
A avaliação nas mesas de operação é a de que Bolsonaro deseja manter a temperatura política elevada, para garantir a mobilização do seu eleitorado, ao mesmo tempo em que tenta criar uma espécie de “Orçamento paralelo”, para expandir os gastos e recuperar a popularidade, sem ferir formalmente as regras fiscais.
Para a economista-chefe do Banco Ourinvest, Fernanda Consorte, é difícil imaginar um alívio duradouro na taxa de câmbio, com entrada mais forte de investidores estrangeiros, com tanta incerteza no campo doméstico.
Consorte nota que até houve um “alívio pontual” com o fato de a PEC dos Precatórios não atrelar recursos arrecadados (via privatizações, por exemplo) a gastos sociais. Mas nada capaz de reverter a percepção de deterioração das contas públicas. “O cenário fiscal está estrangulado, mas o governo quer aumentar os gastos já de olho nas eleições. E isso só vai piorar”, afirma Consorte.
Uma das evidências de que “a situação é muito ruim”, segundo a economista, é o Banco Central elevar a taxa Selic em um 1 ponto porcentual, prometer uma outra elevação da mesma magnitude, e a “taxa de câmbio não sentir tanto, como era de se esperar”.
No exterior, o principal indicador esperado pelo mercado, o CPI de julho, diminuiu os temores de uma escalada inflacionária mais aguda nos EUA, embora os índices ainda permaneçam em patamares elevados. O CPI desacelerou de 0,9% em junho para 0,5% em julho, em linhas com as expectativas. Já o núcleo do CPI teve alta de 0,3% na comparação mensal, abaixo do estimado (0,4%).
A presidente do Fed de Kansas, Esther George, afirmou nesta quarta que a inflação ainda alta nos EUA se deve a desequilíbrios entre oferta e demanda, devido a fatores, em sua maior parte, temporários. Embora tenha dito que as condições econômicas já justifiquem a redução da compra de ativos pelo Fed (‘tapering’), a política monetária deve seguir estimulativa.
Já o presidente do Fed de Dallas, Robert Kaplan, defendeu que a instituição anuncie a retirada de estímulos na reunião do comitê de política monetária do Fed (FOMC, na sigla em inglês) em setembro e comece a reduzir a compra de ativos em outubro.
Juros
Os juros futuros fecharam a quarta-feira em leve alta. Até estiveram em baixa pela manhã, com o recuo do dólar, a reação à queda maior do que esperada das vendas do varejo e dados reconfortantes da inflação nos Estados Unidos, mas no começo da tarde as incertezas domésticas dos cenários político e inflacionário voltaram a pesar e as taxas zeraram o movimento. Profissionais da área de renda fixa destacam, em especial, a postura do presidente Bolsonaro, que insiste na defesa do voto impresso, mesmo com a derrota do tema na terça-feira na Câmara, em dia de votação da reforma do Imposto de Renda. O fim da regra de ouro na PEC dos precatórios é outro fator de incômodo.
A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 fechou em 6,525%, de 6,504% no ajuste anterior, e a do DI para janeiro de 2023 subiu de 8,104% para 8,13%. O DI para janeiro de 2025 terminou com taxa de 9,08%, de 9,025% no ajuste anterior, e a do DI para janeiro de 2027, em 9,48%, de 9,433%.
O ajuste de baixa iniciado na terça ainda conseguiu perdurar no período da manhã de quarta, em função da baixa do dólar e das vendas no varejo restrito com retração de 1,7% em junho ante maio, mais acentuada do que a estimativas mais pessimista do levantamento do Projeções Broadcast (-0,9%). O varejo ampliado recuou 2,3%, ante mediana de queda de 1,6%.
Numa segunda leitura, veio a conclusão de que o resultado não deve interferir no plano de voo do Banco Central, até porque os números de alta frequência têm mostrado muita volatilidade. “A PMC muda zero a aposta para o Copom, pois não é a atividade fraca que vai reduzir a inflação de curto prazo”, afirmou o operador de renda fixa da Terra Investimentos Paulo Nepomuceno, citando choques de oferta vindos, por exemplo, das tarifas de energia e preços de combustíveis.
“E o cenário político está complicando, hoje com Bolsonaro, a apoiadores no cercadinho, exacerbando a disputa com o Judiciário”, acrescentou Nepomuceno. Mesmo após a derrota do voto impresso na Câmara, o presidente disse “que não vai se confiar nos resultados da apuração”.
Nesse contexto, o mercado passou a hesitar à tarde, abandonando o sinal de queda. O andamento das reformas também segue enroscado, com a falta de consenso em torno da proposta de reforma do Imposto de Renda, prevista ainda para quarta. Também repercutiu mal a inclusão na PEC dos precatórios de dispositivo para mexer na regra de ouro e dispensar o governo de pedir ao Congresso uma autorização específica para descumpri-la. A regra impede o endividamento do governo para bancar despesas como salários e benefícios sociais.
Bolsa
O Ibovespa retomou trajetória positiva no período da tarde, amparado no desempenho das ações de Petrobras (ON +1,56%, PN +1,38%) e da maioria dos bancos (Itaú PN +1,11%, Bradesco ON +0,65%), segmento de maior peso no índice. Mas, ao final do pregão desta quarta-feira, virou e fechou em leve baixa de 0,12%, aos 122.056,34 pontos, entre mínima de 120.826,92 e máxima de 122.755,97 pontos na sessão, vindo de abertura a 122 202,63 pontos. O giro financeiro ficou em R$ 32,3 bilhões.
Na semana, o Ibovespa cede 0,61%, mas ainda avança 0,21% no mês e 2,55% no ano. A expectativa pela votação da reforma do IR na Câmara suscitou cautela entre os investidores, em dia positivo no exterior.
“As vendas do varejo tiveram queda de quase 1,7% em junho no Brasil, enquanto, nos Estados Unidos, os dados de inflação ficaram um pouco abaixo da expectativa em julho, o que contribuiu para melhora dos DIs pela manhã. Na política, a derrota do presidente Bolsonaro no plenário da Câmara encerra a questão do voto impresso, abrindo espaço para outras pautas. Nos resultados corporativos, destaque para Marfrig (+0,66%), em desempenho muito forte no segundo trimestre, com lucro líquido a R$ 1,7 bilhão, recorde histórico da empresa”, diz Bruno Madruga, head de renda variável da Monte Bravo Investimentos, chamando atenção também para a distribuição de R$ 958 milhões em dividendos, anunciada pelo frigorífico.
“Mais uma vez os bancos foram destaque de alta, com os investidores ainda repercutindo os bons resultados do trimestre passado e na expectativa pela sequência destes bons números, com o aumento de juros e a recuperação, ainda que embrionária, da economia – o que torna o preço atual atrativo em termos de múltiplos”, diz Rafael Ribeiro, analista da Clear Corretora. Segundo ele, a faixa dos 121 mil pontos, preservada na sessão, é a principal referência do mercado no momento, e “somente a confirmação da perda deste patamar em fechamento semanal será suficiente para que a tendência de alta de curto prazo, de fato, perca força”.
No pior momento desta quarta-feira, pela manhã, o Ibovespa foi aos 120.826,92 pontos, ainda acima da mínima do último dia 3 (120.807,02), quando atingiu o menor nível intradia desde 14 de maio (120.719,17 pontos).
“Tem um movimento de recuperação no Ibovespa, a gente sabe que o mercado acionário foi bem penalizado nas últimas semanas por conta da percepção sobre o risco fiscal, inclusive com fluxo mais comedido dos investidores estrangeiros, que têm importância relevante no mercado acionário, de quase 50% de participação”, observa Camila Abdelmalack, economista-chefe da Veedha Investimentos, acrescentando que o risco político, pelo efeito potencial sobre as contas públicas e as reformas, também tem contribuído para o retraimento do estrangeiro na B3.
Em Nova York, seguindo o padrão das duas sessões anteriores, o desempenho foi misto, com o Nasdaq em baixa de 0,16% no fechamento, enquanto Dow Jones e S&P 500 mostravam ganhos de 0,62% e 0,25%, respectivamente, renovando máximas históricas pelo segundo dia, em meio ao entusiasmo pela aprovação do pacote trilionário de investimentos em infraestrutura nos Estados Unidos, na terça. O petróleo também seguiu em recuperação nesta quarta-feira, com o Brent negociado acima de US$ 71 por barril. A performance da Petrobras na sessão foi favorecida também pelo aumento de 3,5% nos preços da gasolina nas refinarias, anunciado nesta quarta pela empresa.
Assim, Petrobras ON chegou a ficar, durante a sessão, entre os componentes de melhor desempenho no Ibovespa, ao final liderado por Minerva (+14,65%) – que saltou no fim da sessão, com relato de que controladores iniciaram conversas para fechar o capital da empresa -, Hering (+3,53%), Magazine Luiza (+2,50%) e Copel (+1,98%). No lado oposto, Qualicorp fechou em baixa de 15,57% após fraco desempenho da empresa no segundo trimestre, com pressão sobre a margem e índice de cancelamentos ainda alto. Na ponta negativa do Ibovespa, destaque também para Yduqs (-4,89%) e Raia Drogasil (-3,98%), outra empresa a ter divulgado resultados trimestrais.
*Estadão Conteúdo



