Ah, o ministro Paulo Guedes! Nosso herói não sai de cena.
Até o final de setembro ele estava em cartaz com a proposta de reduzir a tributação dos importados para combater a inflação. Foi um “barata voa” no mundo empresarial e político, especialmente na Baréland (desculpa aí, little Paula). De repente vem à tona o tal de Pandora Papers. É um sucesso atrás do outro.
No primeiro ponto, a bem da verdade, nada de novo. Continuo me surpreendendo com quem se surpreende com PG. Em 2018, ainda durante o processo eleitoral, Paulo Guedes defendeu a “abertura econômica”, a farra dos importados. Já naquela altura lembrei que ele vinha defendendo isso há 40 anos. (Dá uma olhada nesse link “O velho economista, o emprego dos meninos e o Capitão.”).
Aí um amigo me diz: “Pô, mas ele se contradiz. Em maio, em encontro com o povo da Indústria, falou diferente.” A palavra literal do ministro foi: “Nós não vamos derrubar a indústria brasileira em nome da abertura comercial, somos liberais, mas não trouxa”. (clica ai se quiser checar a declaração.)
Paulo Guedes não é trouxa. Apenas, fica o dito pelo não dito, porque o governo está pressionado pela subida da inflação.
E ele nem vai olhar para a questão da formação de preço da gasolina e demais derivados do petróleo. Nem vai se preocupar que, com a crise hídrica, aumentou substancialmente a geração de energia à base de combustíveis fosseis, em substituição às hidroelétricas, e que com a disparada do preço dos derivados do petróleo, disparou o preço da energia.
Para o governo, é irrelevante o aumento de custo da energia imposto à indústria e ao setor de serviços. É irrelevante o aumento de custo que o combustível, nas alturas, gera na distribuição. Nem adianta lembrar que isso perpassa toda a cadeia produtiva, da grande indústria ao entregador de pizza.
Não. Com a inflação nas alturas, Paulo Guedes viu a oportunidade para tirar o bolor da mais velha de suas propostas: Escancarar o mercado brasileiro aos importados.
Paulo Guedes pode não ser trouxa, mas seus livros, suas ideias, estão todas assim, bolorentas.
Ele devia ouvir Ha-Joon Chang, um dos economistas mais instigantes da atualidade, autor do livro “Chutando a escada”. Chang mostra que historicamente os países mais desenvolvidos usaram inúmeros mecanismos protecionistas para crescer e subir econômica e socialmente. Chegando lá em cima, querem chutar a escada que os fez ascender e ninguém mais subir. E fazem isso vendendo o “princípio” do Livre Comércio. Dizendo não a medidas que protejam a economia nacional.
Paulo Guedes e os economistas liberais compraram esse conto do vigário. Será que Paulo Guedes é trouxa?
Os Estados Unidos e a Grã-Bretanha são dois campeões do livre comércio. Mas o Governo Biden já sacou o Programa BBB- Build Back Better que tem um enunciado de duplo sentido, tanto de fazer melhor que antes da pandemia, quanto trazer a indústria de volta e fazer melhor e mais competitivo em solo americano. Para isso, combina uma serie de investimentos em melhorias de infraestrutura com benefícios públicos.
Biden é direto, para os americanos “farinha pouca, meu pirão primeiro”. No domingo, 03/out, a Secretária de Comércio, Gina Raimondo, alertou “que proteger o aço americano é uma questão de segurança nacional.” E tome sobretaxação do produto importado. E o livre comércio, Mr. President?
A Grã-Bretanha está tentando resolver uma pendenga interna: O Governo Central de Londres ainda não chegou a um acordo com a Escócia, sobre o número e localização de Zonas Francas a serem instaladas.
“Depois que as duas administrações não chegaram a um acordo sobre uma abordagem comum, o governo do Reino Unido planeja ter pelo menos um na Escócia, além de oito na Inglaterra.” (livre tradução do que você lê em https://www.bbc.com/news/uk-scotland-scotland-business-58758763.)
Segundo o Financial Times mais de 30 licitantes estão prontos para disputar 10 portos livres (7 na Inglaterra, e outros três na Escócia, Gales e Irlanda) (https://www.ft.com/content/fdbed687-1768-42df-9917-00d98abbb690)
Ainda, segundo a BBC, o governo de Boris Johnson deposita grandes esperanças nelas. Em maio, eram oito zonas escolhidas. As maiores, no Tâmisa, em Liverpool e no estuário do Humber, e em uma escala menor, o aeroporto de Plymouth e East Midlands. A Escócia não abre mão de duas.
Por aqui as coisas têm outro rumo. Ha-Joon Chang afirma “O Brasil está experimentando uma das maiores desindustrializações da história da economia.” E o Guedes quer incentivar o produto importado, mais desemprego, mais desindustrialização.
Para Chang, o nome do jogo é pragmatismo. Ele deve ter lido meus artigos, só pode. (Em meu primeiro artigo no OPP defendi esse ponto de vista (https://oprimeiroportal.com.br/popular/03/05/2021/biden-e-o-aeroporto-eduardo-gomes-liberalismo-estatismo-ou-pragmatismo/.)
Em entrevista para El País ele desmistifica:
Cingapura é hoje o exemplo mais bem sucedido de um país com desenvolvimento pragmático e não ideológico. Quando lemos sobre Cingapura nos jornais The Wall Street Journal e na revista The Economist sempre ouvimos falar da política de livre comércio e o acolhimento positivo que o país tem com o investidor estrangeiro. O que é verdade. Mas não se fala que 90% das terras do país são de propriedade do Governo; 85% das casas são de propriedade do governo; e 22% do PIB é produzido por empresas públicas. Eles têm um modelo pragmático de economia, que mistura elementos do capitalismo de livre mercado e do socialismo. Eles não são capitalistas, nem socialistas. São pragmatistas. Uma de minhas frases favoritas é de Deng Xiaoping, o ex-líder Chinês: “Eu não ligo se o gato é preto ou branco, contanto que seja bom em pegar ratos”. Isso é o pragmatismo.
E eu aqui nessa dúvida se o Paulo Guedes é trouxa ou não, vejo a exposição dos Pandora Papers. Lá está nosso Ministro da Economia não apenas colocando seu dinheiro em paraíso fiscal, mas mandando para o Congresso Nacional proposta de Reforma do Imposto de Renda para assegurar que tudo fique assim mesmo, que esses recursos não paguem impostos. Tudo dentro da lei. Você consegue ficar sem pagar seus impostos?
Paulo Guedes tem razão, de trouxa não tem nada. Ou como diriam alguns, de trouxa só tem o …. O trouxa sou eu.
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Biden official says protecting US steel a national security issue
https://www.ft.com/content/e1f33362-2c36-4f99-9b11-7dcd82ee7c06
“O Brasil está experimentando uma das maiores desindustrializações da história da economia”
https://brasil.elpais.com/brasil/2018/01/05/economia/1515177346_780498.html?





muito bom, muito bom