Uma vacina universal contra o câncer está longe de se tornar realidade, mas algumas pesquisas já mostraram resultados promissores ao longo dos últimos anos para certos tipos de tumores malignos. Os desafios na área são muitos, pois produzir imunizantes efetivos contra um conjunto de mais de 200 doenças que se “camuflam” no nosso sistema imunológico não é uma tarefa fácil.
Para contornar isso, pesquisadores ao redor do mundo focam num grupo inicial: pessoas saudáveis com alto risco de progressão para essa que é uma das principais causas de morte em todo o mundo — segundo a OMS, cerca de 10 milhões de pessoas morreram com câncer em 2020.
Abaixo, nesta reportagem, você vai entender quais são essas principais pesquisas e os desafios da produção desses imunizantes. Antes, veja um resumo desta reportagem em 8 tópicos:
- O câncer pode ser definido como um conjunto de mais de 200 doenças que se “camuflam” no nosso sistema imunológico;
- Identificar as células cancerosas não é tarefa simples: é preciso achar uma característica específica que não esteja nas células normais;
- Toda a busca tem como meta descobrir um “antígeno”: molécula ou estrutura molecular que possa despertar as defesas do corpo; é em torno dos antígenos que as vacinas são desenvolvidas;
- A vacina MUC1 vem se mostrando segura e apresenta potencial de prevenção de novos adenomas [um tipo de tumor], reduzindo assim o risco de câncer de cólon;
- Desenvolvedores da MUC1 estão planejando ensaios clínicos que foquem no combate ao câncer de mama e de esôfago;
- Atualmente a maioria dos imunizantes em teste contra o câncer são consideradas um tipo de imunoterapia: buscam evitar que o câncer volte, cresça ou se espalhe; vacina contra o melanoma é um exemplo;
- Pesquisas contra o câncer de pâncreas e a Síndrome de Lynch (que aumenta a predisposição ao câncer no intestino grosso) já usam tecnologias semelhante ao de algumas vacinas contra a Covid;
- Em outro estágio desta luta, há duas vacinas (disponíveis no SUS) que previnem doenças que podem resultar em um câncer: HPV e Hepatite B.
Identificar células cancerosas não é simples
O primeiro ponto a ser levado em conta na discussão de uma vacina contra o câncer é o fato de que identificar células cancerosas não é uma empreitada simples.
William Nassib, diretor médico do Centro de Oncologia e Hematologia da BP, a Beneficência Portuguesa de São Paulo, explica que o câncer promove alterações no DNA e nas moléculas de uma célula normal do nosso corpo por causa de uma série de motivos, como exposição à luz ultravioleta, fumaça de cigarros, vírus e etc.
Assim, teoricamente, essas moléculas alteradas poderiam ser facilmente reconhecidas pelo sistema de defesa do nosso organismo, o sistema imunológico, “montado para reconhecer tudo o que é normal e anormal no corpo”, conforme ressalta Nassib. Mas não é isso que acontece com o câncer.
“O que ocorre é que algumas dessas alterações moleculares permitem que o câncer se esconda no sistema imunológico. Por uma série de mecanismos que cada vez mais nós estamos descobrindo, [o câncer consegue] se esconder do sistema imune e sobreviver sem o ataque das nossas células de defesa”, destaca o médico.
Identificar ponto de atuação: 1ª meta da vacina
Como as vacinas são uma preparação que contêm partes enfraquecidas ou inativas de um organismo (chamado de antígeno) que desencadeia uma resposta imune no nosso corpo, um imunizante efetivo precisa “enxergar” as reais diferenças de uma célula “camuflada” cancerosa para uma célula normal do nosso organismo.
“A célula tumoral de um tumor de pulmão, por exemplo, tem na maior parte de suas proteínas as mesmas que estão nas células normais. Por isso o ideal é quando temos alterações específicas”, exemplifica o oncologista Helano Freitas, do A.C.Camargo Cancer Center, em São Paulo.
Como mostrou o g1 em 2011, um grupo de cientistas dos Estados Unidos conseguiu justamente isso: orientar o sistema imune a atacar tumores que tinham uma proteína encontrada somente em células cancerosas.
Esse alvo em comum, a chamada Mucina 1 (MUC1), é encontrado em diversos tipos de cânceres, como o de mama, pâncreas, próstata, colorretal e o tipo mais grave de câncer de pele, o melanoma.
Na época, os cientistas haviam anunciado o sucesso da vacina apenas em camundongos, mas atualmente o imunizante já comprovou uma forte resposta imune em estudos clínicos com pessoas que possuíam alterações pré-cancerosas que se formam na mucosa do cólon ou do reto (chamadas de pólipos colorretais).
“A vacina MUC1 é fortemente imunogênica [estimula uma resposta imune], segura e apresenta potencial de prevenção de novos adenomas [um tipo de tumor], reduzindo assim o risco de câncer de cólon”, disse a imunologista e principal cientista do projeto, Olivera Finn, em um artigo recém-publicado.
Atualmente, o grupo de Finn está planejando ensaios clínicos que foquem em alterações pré-cancerosas ao câncer de mama e de esôfago.
Nassib faz uma ressalva, contudo, sobre esse tipo de abordagem: ensinar uma resposta imunológica contra MUC1, seja por meio de vacinas ou por meio de qualquer outra técnica, esbarra no fato de que esse “alvo comum” é encontrado também em células normais, mesmo que em quantidade bem menor.
“Então, estamos falando de uma seleção de antígeno. Eu tenho que escolher alguma coisa que esteja só na célula do tumor e não está na célula normal, desse modo eu consigo montar o sistema imunológico contra o tumor especificamente”, destaca.
‘Neoantígenos’: uma promessa, mas também um desafio
Outra estratégia atualmente em estudo gira em torno dos “neoantígenos”, que são substâncias que provocam a resposta imune do nosso organismo, mas que foram produzidas pelas próprias células cancerosas após mutações no DNA do tumor.
“Todo tumor, para que ele exista, tem várias mutações, pode ter até milhares. As células se transformam por causa de mutações no DNA. Agora a maior parte dessas mutações não fazem muitas alterações, não impactam tanto, mas algumas podem ser específicas. E são essas proteínas anormais que podem gerar os chamados neoantígenos, ou antígenos novos”, diz Freitas.
Como esses neoantígenos são mais fáceis de serem reconhecidos pelo sistema imunológico, uma vacina pode então ser produzida.
Vacina x imunoterapia
Contudo, é preciso fazer uma diferenciação aqui, a maioria desses imunizantes em teste são considerados um tipo de imunoterapia, um tratamento que tem como função “turbinar” o sistema imunológico de pacientes, evitando que o câncer volte, cresça ou se espalhe.
Um exemplo disso é uma vacina que está sendo testada em pacientes com melanoma e que, após 25 meses de aplicação, mostrou que dois dos seis indivíduos vacinados não tiveram recorrência do tumor.
Outra questão importante destacada pelo oncologista Helano Freitas é que, em teoria, quando um tumor tem altas cargas de mutações, ele pode ter um maior número de proteínas anormais e, portanto, um maior número de neoantígenos que podem ser reconhecidos pelo sistema imune.
“Na prática, não é necessariamente isso que acontece, você tem tumores muito agressivos como melanoma, por exemplo, que tem uma alta carga de mutações”, afirma.
Em sua maioria, as vacinas de neoantígenos são de fato personalizadas e específicas para um determinado tumor, mas há também estudos recentes que focam em estratégias mais abrangentes, como duas vacinas preventivas atualmente em teste contra o câncer de pâncreas e a Síndrome de Lynch, que aumenta a predisposição ao câncer no intestino grosso.
O oncologista William Nassib lembra que essa é a mesma tecnologia utilizada na maioria das vacinas de Covid.
“Você pega um vírus e faz com que esse vírus produza muita das moléculas alteradas. Aí você injeta o DNA nesse vírus e depois você injeta o vírus na pessoa”, explica.
E é esse vírus dentro da pessoa, diz ele, que vai fazer com que as moléculas alteradas (os neoantígenos) baseadas no DNA do tumor alterado produza um “monte de moléculas”.
“E toda vez que você produz uma coisa em muita quantidade no organismo, especialmente se for uma molécula alterada, é mais provável que o sistema imunológico enxergue isso”, salienta o médico.
O problema, entretanto, é que essas vacinas também não são fáceis de serem feitas, e Nassib cita três questões-chave que resultam nisso: a potência, a exclusividade e a quantidade ideal desses alvos.
A primeira está relacionada ao fato de que alguns neoantígenos não conseguem estimular muito bem o sistema imunológico. Então há uma certa diferença de potência. “Se você escolher um neoantígeno muito fraco, sua vacina não vai funcionar muito bem”, explica o especialista.
O segundo problema está relacionado a escolha de um neoantígeno que seja exclusivo às células do câncer, pois se um imunizante utilizar, por exemplo, um que seja muito parecido com proteínas presentes em células normais, a estratégia pode falhar já que essa resposta imune vai acabar reconhecer (e atacando) as células normais do nosso corpo.
“A grande dificuldade de você desenvolver vacinas contra o câncer é justamente a escolha dos neantígenos”, ressalta Nassib.
Duas vacinas que previnem o risco de câncer já estão disponíveis
Vacinas que previnem certos tipos de câncer já existem e estão disponíveis gratuitamente no SUS.
Mas como pontua o diretor médico do Centro de Oncologia e Hematologia da BP, esses imunizantes funcionam para prevenir a infecção pelo vírus que pode resultar em um câncer. Por isso, depois que esse agente infeccioso entra numa célula normal e a transforma numa célula cancerígena, essas vacinas não são mais eficientes.
Uma delas é a vacina contra o HPV, o papilomavírus humano, que é capaz de infectar a pele e as mucosas do corpo. Embora estimativas apontem que até 50% da população mundial tenha esses agentes infeciosos, a maioria das invasões provocadas por esses vírus são transitórias e costumam regredir espontaneamente.
*G1



