Provavelmente, você já deve ter visto em alguma rede social – seja Twitter, instagram ou facebook – algo sobre esses tais de NFTs, como são a nova aposta de investimentos ou, mais importante para nossa conversa, como serão o futuro dos jogos. Senão, posso dizer que invejo você um pouco.
Nesse nosso pequeno texto, nós iremos, primeiramente, tentar entender o que significa essa sigla para, depois, compreender de quais formas eles supostamente poderão trazer mudanças drásticas para os videogames.
Para deixar este artigo mais dinâmico, vou simular uma conversa entre mim e você, na qual eu responderei suas interessantíssimas perguntas. Afinal de contas, pessoa maravilhosa, jamais perderia uma oportunidade de conversar com você.
Caso você já possua um conhecimento sobre o que é um NFT e deseje apenas ler sobre como (não) vão modificar os jogos, pode pular para o tópico “e os videogames?”. Pode pular sem medo, eu deixo.

Mas que diabos é um NFT?
Pode parecer esquisito, mas o nome é surpreendentemente autoexplicativo.
NFT é um acrônimo para Non-Fungible Token, ou Token não fungível. “Poxa, mas eu não faço ideia do que seja um token ou algo não fungível”.
Sem problemas, vamos por partes.
1º – O que é um Token?
Tokens são, de forma bem aberta, certificados.
Essencialmente, um token é algo (um certificado) que certifica algo. Para melhor ilustrar, vamos usar dois exemplos.
Inicialmente, imaginemos uma advogada. Quando ela for, por meio da internet, “colocar um processo na justiça”, ela precisará certificar no sistema que é ela mesma que está realizando o procedimento. Para isso, ela usa um Pendrive, chamado de token, que a identifica.
Nesse exemplo, o token (na forma de um Pendrive) está certificando a autenticidade da pessoa usando o sistema.
Agora, imaginem que essa mesma advogada é fã de videogames. Ela gosta tanto que decidiu comprar uma estatueta edição limitada da sua heroína favorita dos jogos, a Lara Croft.
Na caixa, junto com a pequena estátua, veio um papel, chamado de “certificado de autenticidade”. Nele, está escrito que esse produto é oficial, feito, por exemplo, pela mesma empresa que faz os jogos.
Nesse exemplo, o token (na forma de um papel) está certificando a autenticidade de um objeto, mais precisamente, da estatueta.
2º – O que é algo não fungível?
Para entendermos o que vem a ser algo infungível (ou não fungível), precisamos esclarecer o que é uma coisa fungível.
Pois bem, o direito brasileiro diz que algo fungível é uma coisa que pode ser trocada ou substituída por outra, de mesma espécie, qualidade e quantidade. No sentido contrário, algo infungível seria uma coisa que não pode ser trocada ou substituída.
“Caramba, direito não é meu forte, não entendi”. Pode ficar tranquila, para isso temos videogames.
Digamos que você tenha uma versão física do jogo Halo, o original de 2001, com CD, caixa e manual. Um amigo seu pede emprestado por alguns dias e, por ser desatento, tropeça e derruba seu jogo em um triturador de lixo, destruindo tudo.
Como ele irá resolver a situação?
Simples, comprando outro halo, de 2001, com CD, caixa e manual. Isso faz desse jogo um bem fungível, que pode ser trocado ou substituído.
Porém, vamos pensar em outro cenário.
Digamos que esse halo não só seja original e esteja na caixa, mas também é o único no mundo que foi assinado por toda a equipe que fez o jogo. Caso seu amigo destrua tudo, simplesmente comprar outro não irá resolver a situação, pois o jogo agora é especial e único.
Nesse caso, o seu Halo seria um bem infungível, que não é possível ser trocado ou substituído.
Tendo dito tudo isso, podemos ter uma ideia de como os NFTs funcionam.
Depois de ser confeccionado em uma blockchain – que é um tipo de rede a qual pode possuir diversas funções, entre elas produzir tokens -, um NFT é ligado a um elemento associado, que pode ser uma imagem, um vídeo ou um item de um jogo, e tal elemento passa a ser certificado como único.
Vejam essa imagem:

Ela é uma imagem normal na internet que você pode copiar e salvar no seu computador ou celular. Porém, caso eu confeccione um NFT e una a ele tal imagem, essa imagem passa a ser única, pois ainda que venham a existir outras mil delas na internet, apenas essa possui um certificado de infungibilidade, ou melhor, um token não fungível.
Na verdade, pela lógica dos NFTs, mesmo que todas as cópias na internet dessa imagem estejam atreladas, cada uma, a um NFT diferente, todas elas serão únicas, pois ainda que existam mil delas, apenas uma será, por exemplo, a número 450.

Mas qual a utilidade prática disso?
Vejam bem, como toda tecnologia nova, seu potencial total é difícil de quantificar. Porém já possuímos algumas aplicações honestamente bem interessantes.
Como seu foco é certificar algo e, consequentemente, fazer tal coisa ser única, cartórios podem usar a tecnologia para realizar procedimentos por meio da internet que originalmente deveriam ser presenciais. É algo tão viável que muitos já estão fazendo uso disso.
Mas vale ressaltar que, pela lógica da tecnologia, o NFT é mais importante do que o elemento que está nele associado. Os entusiastas estão gastando milhões de dólares não nas imagens ou vídeos, mas sim no certificado que atesta a autenticidade e exclusividade do elemento.
Contudo, assim como muitas outras tecnologias em seus primeiros momentos, muitas pessoas são atraídas por promessas falsas de dinheiro fácil e de possibilidades exageradas. E, infelizmente, os videogames provaram ser um terreno fértil para exatamente esse tipo promessa.

E os videogames?
Normalmente, a maneira pela qual um jogo usa um NFT é por meio de itens e personagens. Em determinados jogos os personagens que podemos controlar ou usar são atrelados a um NFT, já em outros, são os itens.
Os evangelizadores do NFT como o futuro de tudo, até dos videogames, costumam defender três “qualidades únicas” que o uso dos tokens pode trazer para os jogos. Iremos agora abordar cada uma delas e dizer a razão pela qual estão erradas.
1ª – Você pode transferir algo de um jogo para outro.
A lógica é mais ou menos essa: ao comprar o NFT de um item para usar no jogo A, você pode utilizá-lo no jogo B, pois ambos os jogos contactariam a blockchain (onde o NFT está registrado), verificariam que você é o proprietário do token e liberariam acesso ao item.
Inicialmente, precisamos entender que a mecânica de algo em um jogo ser acessado em outro já existe.
Recentemente, mais precisamente em 1996, foi lançado um jogo independente e pouco conhecido chamado Pokémon, o qual tinha versões diferentes – tituladas de “red” e “blue” – e possuía como uma das suas muitas qualidades o fato de que um Pokémon capturado em uma versão poderia ser transferido para outra.
A infelizmente esquecida franquia Resistance também possui um meio de transferir algo de um jogo para outro. Caso os jogadores conectassem um PSP rodando o jogo Resistance Retribution em um PS3 rodando Resistance 2, o jogo do portátil seria “infectado”, liberando novas armas e deixando o protagonista mais forte.
Por último, temos os clássicos modernos da Bioware: Dragon Age Origins e o 2º Mass Effect. Adquirindo uma versão especial do jogo de fantasia medieval – Dragon Age -, você teria acesso a uma armadura de dragão (soa bobo… e o é, mas é legal também), a qual poderia, por meio de um registro em um site, ser desbloqueada no jogo de ficção científica.
A ideia de que, por meio de NFTs, os itens de nossos jogos passariam a ser universais é uma falácia propagada por pessoas que, sendo bem generoso, não entendem como jogos funcionam. Todos os exemplos citados só foram possíveis pois seus desenvolvedores assim programaram.
2ª – Você ganhará dinheiro com isso.
Essa noção de que unicamente com NFTs você pode lucrar por meio dos jogos, assim como a anterior, ignora que tal prática já existe.
A maior plataforma de venda de jogos no PC, a Steam, permite que jogadores ganhem e vendam cartas e outros itens colecionáveis baseados nos jogos que possuem, tudo isso sem utilizar qualquer software de terceiros.
O console da Microsoft, o xbox, permite aos jogadores conseguirem pontos que podem ser trocados por, entre outras recompensas, dinheiro na sua respectiva loja virtual.
3ª – Você pode negociar com outros jogadores.
Como quem possui a propriedade do NFT é você, teoricamente você poderia revendê-lo e comercializá-lo com outros jogadores.
Contudo, isso é algo que qualquer pessoa que já tenha jogado algum jogo Online está familiarizada. A prática de comércio entre jogadores não possui nada de novo, o único diferencial está no uso de dinheiro real, o qual, sendo bem honestos, não possui um obstáculo para ser aplicado em jogos sem NFTs.
Ou seja, com esses pontos expostos, fica evidente que os NFTs chegaram aos jogos para resolver problemas que não existem e inovar com ideias presentes desde 1996.
As mais notórias aplicações possíveis na atualidade da tecnologia token já são realizadas por meio de outras soluções, as quais, além de já amplamente conhecidas pelos desenvolvedores, são consideravelmente menos danosas do que os tokens.

Espere um pouco, tem algum mal em usar NFTs?
Infelizmente, sim. Os sistemas usados para fazer um NFT, chamados de POW (proof of work) e POS (Proof of stake), são intencionalmente exigentes das máquinas, ocasionando um absurdo gasto de energia e emitindo uma grande quantidade de carbono.
Ainda que o sistema POS seja razoavelmente mais ecologicamente amigável do que a alternativa, ele apenas o é em razão do POW ser extremamente violento ao meio ambiente. Pense nos dois como a diferença entre incendiar um parque público e um terreno baldio. Claro, uma dessas coisas é menos ruim que a outra, mas ainda assim, você não deveria fazer nenhuma delas.
Sem contar com o fato de que o NFT não carrega consigo, literalmente, o elemento associado. Vejam, ele não é como uma pasta que dentro está a imagem (ou vídeo, ou item de jogo), ele está mais para um certificado que diz que uma imagem, a qual está em algum lugar da internet, é única e sua.
Ou seja, caso o site que hospede o elemento associado saia do ar, o NFT caríssimo irá atestar a autenticidade de um grande nada.
Da mesma forma que, se o jogo para o qual você comprou (ou “investiu”) diversos NFTs na forma de itens e personagens for descontinuado, seus tokens não servirão para muita coisa, não muito diferente do que ocorreria caso você gastasse dinheiro com roupinha em um jogo que, depois de um tempo, fosse encerrado. A diferença é que a roupinha vai te custar uns R$ 30,00, já o NFT vai ser uns R$ 500,00.
O presente texto pode ter soado muito negativo, afinal, essa foi a intenção. Mas não se engane, existem utilidades possíveis e futuras para a tecnologia. Como dito anteriormente, a capacidade de digitalizar procedimentos e bens que antes seriam apenas presenciais e físicos é muito atraente.
Porém o caminho a ser andado ainda é longo. É muito provável que o que seja encontrado no fim dele venha a ser ecologicamente amigável e realmente traga impactos positivos para todos nós, mas esse momento ainda não chegou.
Moral da história: não seja otária. Não gaste seu preciso dinheiro com isso. Invista em coisas melhores, como uma edição completa de Mortal Kombat XI ou um meio de jogar Resistance 3 ou o Resistance Retribution. Eles são muito bons.




