Uma pergunta simples e direta – que eu mesmo já havia me feito, quando dirigia a Secretaria de Planejamento – me foi colocada por um adolescente, filho de um amigo das Minas Gerais. Uma pergunta de vestibular. Parecia aquela estória do Rally de Portugal, onde todo ano, alguém saia ferido, depois de um carro perder o controle em uma curva.
Antes, uma explicação necessária. Fui me comprometer a escrever toda semana e agora tenho de segurar a barra das cobranças. Uma série de contratempos impediu a regularidade prometida, vamos retomar.
Na verdade, é muito interessante a interação com sugestões, comentários e críticas. Tudo é bem-vindo, mas a gente precisa ajustar as expectativas. A ideia aqui é suscitar os temas, não os esgotar. Claro, óbvio, que preciso tomar cuidado. No artigo “O Dinheiro vai acabar…” a cobrança foi de que “terminou abruptamente”, “ficou um gosto de quero mais”, “pareceu inconcluso”. Críticas anotadas.
Interessante ainda desde que começamos aqui, três pessoas anotaram, transversalmente,“como vc é um liberal…(do bem)”, “Vc é um esquerdista de mente aberta”, “Cuidado, esse troço de ser morno, centrista não leva a nada.”
A leitura desses registros, faço junto com os demais que nos incentivaram a manter este “suscitar de temas”, para a análise e reflexão de cada um. Nunca fugi de me posicionar, mas, aqui, levantar a bola é mais importante. Que cada um possa aprofundar e fazer suas próprias análises. Essa é a ideia básica.
Outro ponto de sugestões e cobranças, e que está imbricado com as questões anteriores, é a questão dos temas. Interessante notar que mesmo os que gostaram dos artigos, sugeriram temas mais “pé na terra”: Vacina ou não vacina e seus impactos econômicos, CPI, a insegurança pública e o crime organizado, e muitos mais. Tudo anotado. Dez coisas de cada vez.
Aí voltamos ao ponto de partida. Um dos insights mais interessantes, veio de conversa com o amigo de Minas. Um pedido simples, seguido da pergunta, que há muito também me faço.
O pedido: “Explica ai como funciona a enchente, “a cheia dos rios”, aqui eles pensam que é como acontece aqui, quando uma chuva mais forte faz o rio transbordar”. Ele conhece Manaus e pediu uma foto lá do paredão do Porto para ilustrar a variação para os filhos.
De fato, assumimos o pensamento que no país todos conhecem o fenômeno de subida e descida das águas amazônicas, mas não é assim.
Aí fui explicar a eles que há um padrão que se repete anualmente, ainda que seja em tempo distinto conforme o ponto do rio. Assim, em Tabatinga o processo de vazante começa antes do que em Manaus. Se tomarmos o padrão do Rio Negro, em Manaus, vamos ver que ele sobe a partir de meados de outubro, até o final de junho, começa a baixar no início de julho até outubro, reiniciando o ciclo. (https://www.portodemanaus.com.br/?pagina=nivel-do-rio-negro-hoje). Isso que faz o que os cientistas chamam de pulso de inundação.
“Nos rios Solimões-Amazonas e seus afluentes o pulso (isto é, a periodicidade) de inundação é monomodal (ou seja, de um único tipo, ou modo): a flutuação do nível da água é lenta e mostra um ciclo anual previsível de períodos de cheia e seca (época de nível da água mais baixo). A amplitude (ou seja, a diferença do nível de um rio na seca e na cheia) média é alta, mas pode mudar ao longo do curso de um rio. Nas proximidades de Manaus essa amplitude é cerca de 10 m (ou seja, áreas que no período da seca estão emersas, durante a cheia chegam a estar a 10 metros de profundidade).” (in Canal da Ciência, tinyurl.com/352ephrh)
Isso esclareceu o equívoco fundamental deles: o rio não vai voltar ao nível normal em poucos dias ou horas, é um ciclo anual.
Ai veio a pergunta de vestibular: Se acontece todo ano, por que não tomam providências e todo ano inunda tudo? OK, não é bem assim, não é todo ano que se tem uma subida excepcional, em geral fica dentro de um nível que causa poucos danos, mas é recorrente, sim.
Mas há algo a ser feito?
Mark Pelling, um geógrafo britânico que trabalhou com gerenciamento de risco distingue de três estágios na interpretação do riscos naturais (como as enchentes). Primeiro uma visão “clássica”, centrada na natureza, fatalista. O risco é percebido como a probabilidade de ocorrência de um fenômeno natural destrutivo, cujas origens são externas ao controle humano (no caso, a subida das águas). Pouco a fazer, a não ser se defender e a todo custo minorar os danos. É o que fazemos sempre que as águas sobem além dos 29 metros. Isolamos áreas da cidade, construímos pontes de madeira etc. Exatamente o que estamos fazendo em 2021.
Na segunda fase, a visão é que a percepção do risco não é simplesmente fruto da perturbação da sociedade por um agente natural externo, mas a sociedade humana introduziu as sementes que geram ou potencializam esse risco (Construímos em uma cota que pode ser atingida periodicamente pela subida das águas). Talvez exista algo a ser feito. Quem sabe se estabelecêssemos regulações para construções? O que significa ficar o máximo possível fora do alcance do risco.
O terceiro estágio desenvolve uma visão interrelacionada dos riscos naturais, ou seja, conhecemos os fenômenos envolvidos e estabelecemos ali a presença humana, assumindo a complexidade das relações causais (necessidades da intervenção na natureza, tipo o que fizeram os holandeses). Sim, se os riscos existem porque precisamos estar ali localizados, então precisamos desenvolver soluções, que signifiquem uma abordagem proativa de lidar com os tais fenômenos da natureza.
E aí? O que vai ser? Vamos continuar no estágio inicial? Vamos continuar achando que “faz parte”?
Na fase áurea do ciclo da borracha, nos intitulamos Paris dos Trópicos. Em 1910, a Manaus da Europa, a Paris original, sofreu uma enchente histórica, a maior de todas. O Rio Sena transbordou, a inundação chegou a Gare St. Lazare, uma das seis estações ferroviárias da cidade, situada a 1,4 km das margens do rio. A partir daí, forma ampliados os sistemas de diques, e construídos lagos artificiais, que buscam controlar o nível das águas. Eventualmente, outras vezes, o rio subiu, mas nunca mais naquela dimensão. Foi criado um ente estatal, multiestadual, para gerenciar a questão (https://www.seinegrandslacs.fr/)
Não se diga que a comparação é despropositada. Não se pode permanecer com uma visão do século passado e entender ser normal, que famílias, empresas sejam atingidas com frequência, por um fenômeno recorrente. É legal tirar fotos, é instagramável. Isso se o seu negócio não tiver sido impactado ou se sua casa não está inundada.
Já é hora de sairmos do estágio da visão fatalista. Até porque os extremos climáticos devem se acirrar. Vamos esperar ficar pior?
“A maior de todas as enchentes ainda não aconteceu”, teria dito Vicente Nogueira, ao Portal do Marcos Santos. Nada foi acrescentado explicando a afirmação, mas conheço esse rapaz (até porque sou que guardo aqui um exemplar original da tese dele no MIT), ele sabe o que diz.
Não é preciso esperar a próxima enchente. O Poder Público tem de agir e agir agora. É preciso colocar a ciência para trabalhar a nosso favor, enfrentar o problema. Com certeza soluções de engenharia, de urbanização e saneamento podem ser construídas. Aí até as sereias podem voltar para as fotos do Instagram.





Sensacional a reflexão
Penso da mesma forma, estão banalizando a cheia que afetou tantas famílias no nosso estado
Acho que estamos mesmo precisando de mais entretenimento nessa cidade, pq pro povo ficar indo tirar foto de alagação é que o negócio tá feio mesmo
Todo ano tem cheia e ninguem resolve
Tudo é uma questão de atitude política em querer resolver as situações PREVISÍVEIS das enchentes de todo ano, principalmente em não deixar o zoneamento urbano ser palafitado em conjunto com soluções de engenharia. Exemplo em transformar a orla ribeirinha numa via rodoviária da ponta negra até a balsa com parqueamento, praças e arborização, rampas para descidas de lanchas (04) e infra estrutura turística e de lazer (academia ao ar livre, pista de caminhar e de correr, etc e tal).
Vc já pensou nisso?
Forte abraço
Parabéns Thomaz pela matéria. Excelente.