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Sala de Games | Lares e lugares e familiares

O ano de 2021 nos brindou com um excelente jogo, talvez um tanto desconhecido, mas ainda assim brilhante. Situado em 1986, Lake conta a história de duas semanas na vida de Meredith Weiss, uma mulher com um trabalho de sucesso na área dos computadores que tira férias na sua cidade natal de Providence Oaks.

E essas duas semanas serão dedicadas a entregar correspondências. Assumindo o trabalho de seu pai, Meredith se torna a carteira temporária da pequena cidade do interior. Ela passará 14 dias se familiarizando cada rua, cada prédio, cada pessoa e, surpreendentemente, descobrirá um pouco mais de si mesma. Como ela diz no começo do jogo, em pouco tempo saberá cada endereço de cor.

Contudo, o quanto familiarizada ela ficará depende unicamente de você. Você, jogadora, é quem irá internalizar os nomes das ruas e os melhores caminhos para chegar em cada uma, você é quem vai decidir se irá se aproximar das vidas de cada um das pessoas com quem interage e, por fim, decidirá que tipo de relação a Meredith tem com o lugar, as pessoas e consigo mesma.

Caso você se permita se importar com a cidade e com as pessoas, verá que Lake consegue fazer, de forma excepcional, algo que os jogos têm como vantagem sobre os demais ramos da arte: a construção de familiaridade com um lugar.

Vejam, existe um seriado clássico chamado Twin peaks. Nele, após um assassinato de uma jovem, um investigador do FBI é enviado para a pequena cidade que dá nome a série. O que se segue é uma sequência de descobertas, reviravoltas e muita… “criatividade” – a série é fenomenal, recomendo muito – mas, mais importante para o que quero falar, ocorre um gradativo processo de familiaridade com o local.

Tanto o personagem principal quanto você, telespectadora, passam reconhecer cada localidade e pessoa por nome, saber um pouco de sua história, entender a rotina e se sentir em casa.

Pois então, é exatamente isso que jogos – principalmente lake – conseguem fazer muito bem. 

Um Lar Virtual

Sejam os pequenos detalhes de uma ambientação ou os trajetos de um ponto a outro, enquanto um filme, por exemplo, depende de cortes e passagens rápidas, um jogo pode levar mais tempo, seja por decisão própria ou por ato da jogadora.

Citando uma última vez Lake, todo o trajeto pela cidade é feito por você, não há cortes que te levam instantaneamente para o próximo destino (com exceção do fim dos dias no jogo). Cada passo e cada quilometro rodado é sentido por você. 

E, caso assim você decida, essa mesma familiaridade passa a ser sentida com as pessoas. Estranhos se tornam amigos, colegas ou apenas conhecidos, mas nenhum deixa de ocupar um lugar em sua mente.

Um outro jogo bem intrigante quanto a relação que constrói com o lugar em que se passa é Firewatch.

Nele, acompanhamos Henri, um homem que, ao contrário de Meredith, sai da cidade grande para se afastar do mundo, aceitando um trabalho de verão no parque Wyoming, nos estados Unidos.

O jogo possui uma história cativante e uma atuação fenomenal, mas o que é interessante para nós é que ele também tem a reserva natural de Wyoming para ser explorada. O lugar que aparenta ser (e é) vasto começa a ficar gradativamente comum e caseiro.

As trilhas são feitas passo a passo, com leves modificações no terreno que ajudarão em retornos posteriores, como colocar uma corda em determinado lugar. Conforme exploramos e conhecemos a reserva, mais íntimos com ela ficamos. 

Ainda que uma descrição escrita ou uma obra unicamente visual conseguisse demonstrar o ambiente, apenas por meio de Firewatch conseguimos ter uma sensação quase tangível de escala e familiaridade.

A beleza de Pequenas cidades

Um ponto interessante sobre os jogos que têm mais êxito em transmitir a sensação de familiaridade com um lugar – e com as pessoas que nele habitam – é que, normalmente, isso é algo mais viável de acontecer quando o lugar é pequeno.

Assim como na vida real, é complicado ter uma intimidade com a totalidade de uma cidade grande, seja em razão da distância entre as destinações, pela quantidade de pessoas que você irá encontrar (mas jamais conhecer) e pelo ritmo acelerado.

Porém, quando limitamos o escopo, as coisas ficam mais administráveis. Temos, na franquia de jogos Yakuza, o distrito de Kamurocho, presente na totalidade dos mais de 7 jogos. Ainda que se passe em Tóquio, o fato de se limitar a apenas um bairro, permite que a construção de um elo de intimidade com a localidade, a qual é praticamente um personagem, mudando e evoluindo de jogo para jogo.

Até os jogos da franquia que se passam em mais de uma ambientação conseguem manter essa atmosfera, em razão do reduzido tamanho que tentam representar.

Por último, podemos citar o brilhante Persona 4. A aventura paranormal de jovens japoneses que tem de conciliar a vida escolar, azaração e viagens quase literais para dentro dos aspectos mais sombrios e inseguros da mente humana é um clássico moderno, contudo, para nossa discussão, a locação do jogo é o mais importante.

O fato de se passar em uma pequena cidade interiorana chamada Inaba contribui muito para a atmosfera da obra e para o ritmo da aventura.

Assim como em Lake, você passa a conhecer intimamente os locais e as pessoas, aprendendo sobre suas histórias e passados. Um fator interessante do jogo é que o tempo está sempre avançando e determinados eventos ocorrem apenas em certos dias. Ou seja, não é possível ver tudo, mas está tudo bem, faz parte.

Jogos nos permitem inúmeras coisas únicas e uma delas é a capacidade de apenas estar em um lugar, sentir sua atmosfera e entender seu ritmo. Ainda que lugares impossíveis sejam sempre interessantes de se ver em um jogo, as vezes o mais fantástico pode ser apenas um cidadezinha no interior dos estados unidos ou um pequeno bairro em Tóquio. 

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